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Dia Mundial do Meio Ambiente | Qual a sua relação com o meio ambiente?

Com o objetivo de promover a conscientização ambiental e estimular reflexões sobre ações concretas que podem ser feitas para melhor cuidar do ambiente a Organização das Nações Unidas (ONU) postula o dia 5 de julho como Dia Mundial do Meio Ambiente.

Contudo, no ano de 2020, que está sendo no mínimo extraordinário, a pauta do meio ambiente fica, ou seria mais coerente se ficasse, em maior evidência. Pois, este tem sido o ano da grande crise sanitária mundial, que fez parar até a máquina da economia, o que até então parecia impossível. Inclusive, há quem diga, como Eliane Brum em uma coluna no El País[1], que a pandemia do Covid-19 é um sintoma pontual do que a crise climática está produzindo lentamente, a jornalista ainda coloca que

“É por isso que cientistas, intelectuais indígenas e ativistas climáticos têm gritado para uma maioria que se finge de surda, para não ter que sair do seu conforto mudando velhos hábitos, que é preciso alterar os padrões de consumo radicalmente, que é preciso pressionar radicalmente os governantes para políticas públicas imediatas, que é preciso combater radicalmente as grandes corporações que destroem o planeta. Mas, como a crise climática é lenta, sempre foi possível fingir que não estava acontecendo (...)” (grifo nosso).

Ou seja, o momento que vivemos escancara a necessidade profunda e urgente conscientiz(AÇÃO) acerca dos cuidados ambientais, do futuro do planeta e da vida na Terra. Assim, nos questionamos: o que é esse tal meio ambiente? qual é o nosso lugar enquanto sujeitos e sociedade? O que pode significar uma relação com o meio ambiente?

Para refletir sobre essas questões, um livro, intitulado Ideias para adiar o fim do mundo: o amanhã não está a venda do autor indígena Augusto Krenak[2], pode contribuir. Augusto Krenak (2019) problematiza duas ideias amplamente divulgadas e que são sempre mencionadas quando o que está em pauta é o meio ambiente, mas ao serem analisadas em profundidade revelam uma certa perversidade, que a ideia de humanidade e sustentabilidade.

Sobre a ideia de humanidade o autor questiona, como é possível homogeneizar um diversidade tamanha e tão rica, se a modernidade e o imperativo do capital descolou povos, coletivos, pessoas daquilo que sustenta as identidade: a memória ancestral, os vínculos profundos com os outros, com a terra, etc.. De modo que nos vemos, “alienados do mínimo exercício de ser”, como mão de obra, nos centros urbanos, obrigados a operar a máquina da economia, “nesse liquidificados chamado humanidade” (KRENAK, 2019, p.9). Um trecho do poema O Rio de João Cabral de Melo Neto[3], já dizia algo parecido


“Vira usinas comer as terras que iam encontrando; com grandes canaviais todas as várzeas ocupando. O canavial é a boca com que primeiro vão devorando matas e capoeiras, pastos e cercados; com que devoram a terra onde um homem plantou seu roçado; depois os poucos metros onde ele plantou sua casa; depois o pouco espaço de que precisa um homem sentado; depois os sete palmos onde ele vai ser enterrado.”


Isso nos leva segunda ideia que Augusto Krenak (2019, p. 9) analisa, a sustentabilidade, que é para ele um mito criado pelas corporações para “justificar o assalto que fazem à nossa ideia de natureza”. A ideia de que somos uma humanidade contribuiu para crermos que somos algo separado da Terra, como se houvesse nós humano, vivendo esse abstração chamada civilização, fossemos entes distintos da natureza.


“Enquanto a humanidade está se distanciando do seu lugar, um monte de corporações espertalhonas vai tomando conta da Terra. Nós, a humanidade, vamos viver em ambientes artificiais produzidos pelas mesmas corporações que devoram florestas, montanhas e rios. Eles inventam kits super interessantes para nos manter nesse local, alienados de tudo, e se possível tomando muito remédio. Porque, afinal, é preciso fazer alguma coisa com o que sobra do lixo que produzem, e eles vão fazer remédio e um monte de parafernálias para nos entreter.” (KRENAK, 2019, p. 11, grifo nosso).


Para colocarem cheque de vez essa ideia de humanidade e sustentabilidade, está a situação de extermínio dos povos da terra – indígenas, quilombolas, caiçaras, aborígenes – que, justamente ao resistirem em manter seu elo com a Terra, são considerados “não civilizados”, “não pertencentes a categoria humano”, “um empecilho para o desenvolvimento”. E não é qualquer desenvolvimento, é um desenvolvimento “sustentável”, que da perspectiva das corporações significa reduz tudo em recurso, em objeto de consumo, em lucro. Refletir sobre o meio ambiente compreende “ser crítico a essa ideia plasmada de humanidade homogênea na qual há muito tempo o consumo tomou o lugar daquilo que antes era cidadania.” - Boaventura de Sousa Santos através de Krenak (2019, p. 12). Pois, como disse José Mujica (através de KRENAK, 2019, p. 12)


“Transformamos as pessoas em consumidores, e não em cidadãos. E nossas crianças, desde a mais tenra idade, são ensinadas a serem clientes. Não tem gente mais adulada do que um consumidor. São adulados até o ponto de ficarem imbecis, babando. Então para que ser cidadão? Para que ter cidadania, alteridade, estar no mundo de uma maneira crítica e consciente, se você pode ser um consumidor?”

Precisamos parar com esse ritmo de produção, que como as usinas de João Cabral de Melo Neto, destrói a natureza, se alimenta silenciosamente de subjetividades, massifica as identidades, as história, rompe os vínculos do bicho humano (com ele mesmo, com os seus e com a natureza).

“Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelo menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência. Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de vida. (KRENAK, 2019, p. 15, grifo nosso).”

Assim, podemos retomar as perguntas que tange a relação do sujeito com o meio ambiente: qual é o nosso lugar enquanto sujeitos e sociedade? O que pode significar uma relação com o meio ambiente?


A área da Ecopsicologia, apresentada na tese de Carvalho (2013, p.17)[4], tem como eixo central as relações do sujeito como a “teia da vida”, relações essas que são atravessadas pela cultura e vão para além dos comportamentos observáveis. Essa relação com a “teia da vida” inclui a subjetividade,“na qual crenças, autopercepções, emoções, motivações, gratificações e conflitos cumprem parte fundamental do que se expressa em comportamentos ambientalmente funcionais ou disfuncionais”. Desse modo, a partir da ecopsicologia podemos compreender uma importante dimensão do bicho homem, que além de ser bio-psico-social-espiritual é também ecológico. Se aproximar dessa dimensão significa buscar uma compreensão mais ampla sobre quem nós somos, como sujeitos individuais e sujeitos coletivos, sendo parte de uma “teia da vida”, possibilitando construção, desconstrução e recriação da vida.

Além disso, integrar o bicho humano a natureza significa também localizar o sujeito dentro do cosmo, responsabilizando-o eticamente e preenchendo de sentidos a forma como o sujeito se coloca no mundo. Assim, se pudermos dar atenção a alguma visão que escape a essa cegueira que estamos vivendo no mundo todo, talvez ela possa abrir a nossa mente para alguma cooperação entre os povos, não para salvar os outros, mas para salvar a nós mesmos. (KRENAK, 2019, p. 22).

Essas caminhos reflexivos, filosóficos e científicos sobre o mundo e a atual conjuntura e também a partir do campo da psicologia, com os estudos sobre ecopsicologia que é possível pensar e vivenciar uma dimensão ECOlógica do Diálogo. Pois, acreditamos que uma relação fraterna, respeitosa e ética com o meio ambiente leva o sujeito a um encontro, profundo e verdadeiro, consigo mesmo e com os outros, de potencial transformação subjetiva e coletiva.

[1] BRUM, Eliane. O vírus somos nós (ou uma parte de nós): O futuro está em disputa: pode ser Gênesis ou Apocalipse (ou apenas mais da mesma brutalidade). El País. on-line. 20 de mar. 2020. Disponível em <https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-25/o-virus-somos-nos-ou-uma-parte-de-nos.html> Acesso em: 22 mar. 2020.

[2] KRENAK, Augusto. Ideias para adiar o fim do mundo: o amanhã não está a venda. São Paulo: Companhia da Letras. 2019


[3] MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina e outros poemas. Rio de Janeiro: Objetivo, 2007


[4] CARVALHO, MARCO A. B. Ecopsicologia e Sustentabilidade: de frente para o Espelho. 2013. 155 f. Tese (Doutorado em Política e Gestão Ambiental).Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília, 2013

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